Quando o rio encontra sua terceira margem: o palco

31 03 2011

Texto: Leandro Oliveira (ASCOM / Grupo de Teatro Universitário da UFPA)


Grupo Em Nome do Rio e Grupo de Teatro Universitário da UFPA trazem o espetáculo “Em nome do rio”, levando para os palcos do Teatro Cláudio Barradas a obra de Guimarães Rosa.

Será que foi loucura? Pagamento de promessa? Doença? Não se sabe. A única certeza é que o pai se foi para o mesmo lugar, nunca distante, o meio. Aquele rio-rio-rio, que em sua metade se torna um não-lugar, agora é morada e demência, coragem e covardia; sina. Este descobrir do rio e seus encantos está presente na livre adaptação de “A terceira margem do rio” de Guimarães Rosa, que dá vida ao espetáculo “Em nome do rio”, que fica em cartaz de 31 de março a 3 de abril, sempre às 20 horas, no Teatro Universitário Cláudio Barradas.

O processo, composto de muita música e elementos da cultura popular, traz a tona a nossa intrínseca relação com o rio, que para alguns é sua rua, para outros, sua sobrevivência. Ele, neste espetáculo, é protagonista de sua força; se tornando corpo, mais que água e pulsação. O porquê da ida do pai ao rio se resume em si mesmo, no seu encantar.

A história a ser contada é a do pai que, num mistério que só o rio pode entender, entrega-se a ele sem nunca beirar margem, nunca mais na vida. Deixa filhos, casa, esposa e se entrega a uma vida na canoa, encontrando uma terceira margem, vocação sem nunca se afastar por completo dos seus. E causa dor não só a si, mas a todos em sua volta.

A subjetividade de dor do pai, tanto indagada pelo romancista em seu conto, é colocada sob a ótica das demais dores. A da mãe, por exemplo, que num misto de luto e ódio só consegue extrair um: — “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!”. Isto sintetiza a antítese ódio-amor, que é trabalhada com primor pelos diretores Dário Jaime e Fabrício de Souzsa. Outra dor relevante é a do filho, envolto na decisão do pai que se estende a ele, no chamado recusado de sua vocação, na vergonha da negação do pai e de si mesmo.

A música é um ponto essencial nesta montagem, já que várias nuances da narrativa são permeadas por ela. O diferencial é a utilização somente de percussão, que dá um caráter mais ritualístico à peça. O percussionista e diretor musical Diego Vattos dá o tom de carimbó, lundu e vários ritmos, para que esse rio corra seu curso.

Esta experiência teve inicio em março de 2010 no Grupo de Teatro Universitário, que é um projeto desenvolvido pela Escola de Teatro e Dança da UFPA, conta com membros da academia e da escola, mas, especialmente nesta montagem, com uma maioria de pessoas oriundas da comunidade, muitas iniciando no teatro neste processo. A idade varia muito entre os integrantes, numa troca de experiências, gerações, e idéias variadas. O resultado final é uma mescla de identidades que se volta a um bem comum: o teatro.

“Em nome do rio” é uma grande ode a esse rio que é nosso, onde se encontra corpo e essência amazônida. No palco, ele se transforma em gesto, angústia, música e muito sentimento. Remonta-se aqui o subjetivo de Guimarães Rosa sob um olhar nortista, ribeirinho por vocação. Vale à pena descobrir sua terceira margem.

  • Serviço:

Espetáculo “Em nome do rio”, do Grupo Em Nome do Rio e Grupo de Teatro Universitário da UFPA.

De 31de março a 03 de abril de 2011

Teatro  Universitário Cláudio Barradas.

Sempre às 20h00.

R$10 (com meia entrada para estudantes).

Censura 18 anos.

Anúncios




“Máquina” se apresenta essa semana no teatro

3 11 2010