Uma revoada de pássaros originalmente paraense

17 06 2010

Por Phillippe Sendas – Estudante de Comunicação Social da UFPA

Foto: IAP

O dia era 13 de fevereiro de 1878. O suntuoso Teatro Nossa Senhora da Paz, construído em estilo neoclássico, fora inaugurado com o objetivo de entreter as abastadas famílias da aspirada “francesinha do Norte”, do intendente Antônio Lemos. Encenado pela Companhia de Vicente Pontes de Oliveira, o primeiro espetáculo apresentado no teatro foi “As Duas Órfãs”, do dramaturgo e romancista francês Adolphe d’Ennery. O final do século XIX e o início do século XX, marcam um período de intensa modernização da Santa Maria de Belém do Grão-Pará, denominado Belle-Époque.

A remodelação urbana, a mudança de hábitos e costumes, e uma política de embelezamento inspirada nas cidades européias, com destaque para Paris, só foi possível porque a capital paraense contava com os subsídios provindos da economia da borracha, e, também, era o principal ponto de escoamento do produto para o mercado externo. A professora do Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia, da Universidade Federal do Pará, Maria de Nazaré Sarges, aborda essa temática com propriedade em seus estudos já desenvolvidos.

Esse percurso histórico foi traçado para contextualizar o surgimento de uma das manifestações culturais mais originais do estado do Pará: os Pássaros Juninos. Definido por muitos como uma “opereta popular contemporânea”, os pássaros surgiram no final do século XIX inspirados nas características das apresentações de companhias artísticas do Teatro da Paz. No primeiro ano de existência do teatro, entre fevereiro e dezembro de 1878, estima-se que foram apresentados 126 espetáculos, principalmente, aqueles de companhias vindas de Portugal, da França e do Rio de Janeiro. O público era formado por uma nova elite paraense composta de seringalistas, financistas e comerciantes. Em contrapartida, as classes menos favorecidas, que não tinham acesso a esses espetáculos, criaram os grupos de pássaros, numa manifestação que envolve música, teatro, dança e literatura e é apresentada nos festejos juninos até hoje.

“O pássaro junino se configura como uma criação de inspiração popular tão bela e tão complexa que, no meu entender, é a maior contribuição da cultura paraense para a cultura junina nacional”, afirma o poeta, professor e estudioso do imaginário amazônico, João de Jesus Paes Loureiro. Atualmente, segundo o Instituto de Artes do Pará (IAP), na Região Metropolitana de Belém existem 18 grupos de pássaros. O Rouxinol, do bairro da Pedreira, por exemplo, conta com 104 anos de existência. Além desse, há também os pássaros Uirapuru, Tucano, Papagaio Real, Sabiá, Pavão, Beija-Flor, Tangará, Bem-Te-Vi, Ararajuba, Tem-Tem e outros.

Os grupos de pássaros possuem um administrador ou gerenciador chamado de “guardião”. Marilza Tavares, 36 anos, guardiã há seis anos do pássaro Tem-Tem, do bairro do Guamá, resume que o mais gratificante no trabalho é “olhar para trás e ver tudo lindo e todo mundo com aquele sentimento no coração mostrando para o povo o que é a cultura, o que é o pássaro junino”, se referindo às apresentações do grupo que é formado por 60 pessoas. No entanto, a guardiã reforça a sua crítica para os nossos governantes que, segundo ela, precisam valorizar mais as manifestações culturais do estado.

Em 1965, o primeiro periódico científico brasileiro do campo das ciências da Comunicação, a revista Comunicações & Problemas, publicou na sua edição inaugural um artigo sobre os pioneiros estudos da “folkcomunicação”, uma autoria de Luiz Beltrão, o primeiro doutor em Comunicação do Brasil. Segundo Luiz Beltrão, a “folkcomunicação é o processo de intercâmbio de informações e manifestações de opiniões, idéias e atitudes de massa através de agentes e meios ligados direta ou indiretamente ao folclore”. Com a expansão dos estudos dessa teoria, surgiram outros direcionamentos de pesquisa como o foco na relação entre as manifestações da cultura popular e a comunicação de massa. Desse modo, a manifestação expressa por meio dos Pássaros Juninos se ajusta aos estudos desenvolvidos por Beltrão, já que os grupos surgiram por iniciativa, principalmente, de moradores de regiões periféricas que se caracterizavam pelo reduzido poder aquisitivo devido à baixa renda.

Carlos Alberto Barbosa, 61 anos, guardião há 12 anos do pássaro Uirapuru, dos bairros do Umarizal e da Pedreira, acredita que as apresentações do grupo, parcialmente, são uma forma de comunicação entre a comunidade e o restante da sociedade, tanto que os personagens da peça conhecidos como “matutos” utilizam da comédia para inserir o contexto social atual nas apresentações, como, por exemplo, as questões relacionadas ao saneamento básico da comunidade. Paes Loureiro, identificando os Pássaros Juninos como uma forma de teatro, arte e cultura popular, afirma que o contato entre as comunidades e a sociedade por meio das apresentações é feito “por via da sensibilidade, por via da emoção estética” em um processo de comunicação popular.

Apesar da redução do número de grupos, os Pássaros Juninos estão resistindo, mesmo com tantas dificuldades. Além das restrições financeiras, muitos deles sofrem com a evasão de pessoas que não se interessam mais em participar dos ensaios e das apresentações. Há a tentativa por parte de muitos guardiões de desenvolver, não só no mês dos festejos juninos, mas durante o ano todo, um trabalho social nos bairros e comunidades onde os grupos estão localizados. Cabe a sociedade e ao poder público a difícil tarefa de impedir que essa manifestação cultural genuinamente paraense desapareça.

  • Reportagem produzida para o Jornal Laboratório “Entre Vistas”, da disciplina Laboratório de Jornalismo Impreso II.




Projeto apresenta três espetáculos no palco do TUCB

7 06 2010

Texto: Caroline Soares *

Fotos: João Roberto Simioni

Resultado da pesquisa do ator paulista Eduardo Okamoto, o projeto “10 anos por uma escrita do corpo”, resume uma década de estudo sobre a criação teatral fundada na organização de repertórios físicos e vocais do atuante. O evento acontecerá em cinco cidades do país : Belém, Natal, Goiânia, Porto Alegre e Belo Horizonte. Em Belém, entre oficinas e outras atividades,  o projeto inclui a apresentação das peças “Agora é à hora de nossa hora”, ” Uma estória abensonhada”  e “Eldorado” no Teatro Universitário Cláudio Barradas.

O espetáculo “Agora é a hora de nossa hora”  foi desenvolvido a partir da contribuição do ator para o projeto “Gepeto” – uma parceria da ONG ACADEC (Ação Artística para o Desenvolvimento Comunitário) e o CRAISA (Centro de Referência em Atenção Integral à Saúde do Adolescente)-  em que crianças e adolescentes de rua eram inseridos no mundo da arte. A pesquisa foi estendida para a coleta de depoimentos, ações, gestos e vozes, além de um estudo sobre a Chacina da Candelária.

Assim nasceu “Agora e na hora de nossa hora”, com direção de Verônica Fabrini, a peça já participou de grandes festivais de teatro do Brasil, como o Filo, do Paraná. O espetáculo ainda foi apresentado em outros países: Espanha, Suiça, Kosovo e Marrocos. Neste último, o ator recebeu o prêmio de Melhor Interpretação Masculina do Festival Internacional de Expressão Corporal, Teatro e Dança de Agadir.

Após o espetáculo, será lançado o livro “Hora de nossa hora: o menino de rua e o brinquedo circense” (Editora Hicitec, 2007). O livro de autoria de Okamoto sintetiza a sua experiência com os meninos de rua, assim como o processo que gerou o espetáculo.

Dois é bom

Além de “Agora e na hora de nossa hora”, a programação artística apresenta “Uma estória abensonhada”, em que Eduardo Okamoto dirige atores do Grupo Camaleão de Pesquisa em Teatro, do Rio Grande do Sul. O espetáculo adapta para a cena o conto “A praça dos deuses”, do escritor moçambicano Mia Couto. O processo de criação, assim como os solos de Eduardo Okamoto, contou também com um apurado trabalho de observação de pessoas reais.

Em cena, os atores contam a história do rico comerciante Mohamed Pangi Pathel que, em 1926, despende sua fortuna para festejar, em praça pública, o matrimonio de seu único filho. Festa igual nunca mais se veria naquelas paragens. Nos trinta dias de duração dos festejos, a ilha inteira vinha e se servia às arrotadas abundancias. Em final surpreendente, o ismaelita segreda-nos uma desculpa, revelando os motivos de tão inesperada celebração.

Três é bom demais

Novamente um solo de Okamoto, cujo processo criativo, dessa vez, foi fundado no estudo sobre a rabeca – instrumento de arco e cordas, presente em muitas manifestações de cultura popular no Brasil.

Em pesquisas de campo nas cidades de Iguape e Cananéia (litoral sul de São Paulo), o ator conheceu rabequeiros e seus construtores, recolheu causos, músicas, gestos, ações vocais, histórias etc. O premiado dramaturgo argentino Santiago Serrano partiu destes materiais primeiros para criar a fábula de um cego que, acompanhado por uma menina, busca o seu bom lugar: “Eldorado”. O espetáculo é dirigido por Marcelo Lazzaratto que, em sua concepção de encenação, emprega pouquíssimos recursos materiais, transferindo para o corpo do ator, para o uso da palavra e para a iluminação as tarefas de significação. Sobre o palco nu, destaca-se pela luz a presença de um homem cego que anda em círculos e imagina, cria, inventa realidades em busca do conhecimento.

“Eldorado” participou de alguns dos mais importantes eventos e festivais do país, entre os quais se destacam o Festival Internacional de Londrina, o Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, a Mostra Cena Contemporânea de Brasília e o Caxias em Cena, entre outros. Por sua atuação, Eduardo Okamoto foi indicado ao Prêmio Shell 2009, a mais prestigiosa premiação do país, na categoria de melhor ator.

    A programação foi contemplada pelo Prêmio Myriam Muniz de Teatro 2009 e, em Belém, conta com apoio do IAP, Teatro Cláudio Barradas, Escola de Teatro e Dança da UFPa e III Festival Territórios de Teatro. Conheça o restante da programação clicando aqui.

    • Serviço

    Agora e na hora de nossa hora – 7/06, às 19h (1ª sessão) e às 21h (2ª sessão). Espetáculo recomendado para maiores de 14 anos. Ingressos: R$5(meia para todos). Duração : 60 min.

    Uma estória abensonhada – 8/06, às 19h (1ª sessão) e às 21h (2ª sessão). Espetáculo com indicação etária livre. Ingressos R$5(meia para todos). Duração: 50 min.

    Eldorado – 9 e 10/06, às 19h.Espetáculo recomendado para maiores de 12 anos.Ingressos R$5 (meia para todos).

    * Com informações da produtora local, Cristina Costa e site http://www.eduardookamoto.com/





    Teatro Universitário Claúdio Barradas – Sobre

    30 03 2010

    História

    Inaugurado em 19/06/2009, o Teatro Cláudio Barradas vem atender a uma demanda de diferentes experiências estéticas em Artes Cênicas.
    Situado num bairro central de Belém, o conjunto formado pelo Teatro Universitário e a Escola de Teatro e Dança, tem como função contribuir para o desenvolvimento das Artes Cênicas no Pará. Assim sendo, o Teatro Universitário se constitui em um espaço aberto aos inúmeros grupos artísticos da cidade e da região com os quais poderá estabelecer uma prática enriquecedora.
    A construção do Teatro Universitário Cláudio Barradas no mesmo espaço onde funciona a Escola de Teatro e Dança, um conjunto arquitetônico tombado pelo patrimônio estadual, coloca à disposição da comunidade paraense um centro de ensino, pesquisa e extensão voltado, prioritariamente, às artes cênicas. Localizado próximo à Praça Brasil, atualmente denominada Praça Santos Dumont no bairro do Umarizal, dispõe de inúmeras linhas de ônibus, facilitando o acesso ao teatro.

    Estrutura

    A entrada principal do teatro é voltada para a rua Jerônimo Pimentel, onde se encontra uma pequena ágora que, projetada de acordo com os conceitos de acessibilidade, oferece aos seus usuários os seguintes serviços: um café e bilheteria, painel com estrutura metálica disponibilizado para afixação de cartazes e banners da programação teatral de seus usuários.

    Endereço

    Rua Jerônimo Pimentel, 546 (ESQUINA COM D.ROMUALDO DE SEIXAS)
    Bairro do Umarizal
    CEP: 66.055-000
    Belém-PA

    Contato

    Fone: (91) 3249-0373 (horário: 14h as 21h)
    E-mail: teatro@ufpa.br

    Administração

    Direção: Margaret Refkalefsky                      Assessoria Administrativa: Erizani Sampaio
    Assessoria técnica: Cezar Machado                    Assessoria Cenotécnica/ Escritório Modelo de Cenografia: Iara Regina Souza, Bruce Macedo, Walter Chile.                                     Estagiárias: Caroline Soares (comunicação) e Thamires Goulart (letras)
    fonte: http://www.ica.ufpa.br